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As emoções em tempos de adversidade
PUBLICADO EM: quarta-feira, 22 de abril de 2020
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AS EMOÇÕES EM TEMPOS DE ADVERSIDADE

Por Edson Herrero, head da Escola de Secretariado e do Assessment Center da Integração 

O universo do trabalho testa nossas emoções há muito tempo, sobretudo em cenários de competitividade, excelência, entrega, cobrança por qualidade, prazos apertados, competências e habilidades sendo postas à prova a todo momento. Não bastasse tudo isso, agora temos um desafio maior: equilibrar a já conhecida tensão emocional com a questão da saúde fisiológica em tempos de covid-19.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), faz algum tempo, vem chamando a atenção sobre as novas doenças ocupacionais. Elas migraram de sintomas meramente ergonômicos para patologias graves (agudas ou crônicas), em tempo real e realista no mundo organizacional. Mas como o trabalho não pode parar, temos driblado tais patologias como podemos com as drogas lícitas, como os medicamentos controlados. Há um exército de pessoas em idade produtiva no planeta que literalmente se droga para ter algum tipo de bem-estar e lucidez, atributos mais do que exigidos para qualquer profissional em atividade. 

Nossa performance é avaliada o tempo todo, do mesmo modo que nossas entregas e habilidades. Temos de lidar com responsabilidades, preciosismo, perfeccionismo, controle do tempo, marketing pessoal, além de desenvolver a capacidade de trabalhar em equipe, sermos multifuncionais e específicos, simultaneamente. Realmente estamos numa curva perigosa da psicodinâmica do trabalho. Sobre esse tema, leia Christophe Dejours, psiquiatra francês, doutor em medicina, especialista em medicina do trabalho e em psiquiatria. É considerado o pai da psicodinâmica do trabalho.

O ambíguo resultado do trabalho 

O trabalho e suas relações deveriam nos proporcionar momentos de prazer e realização, além, é claro, de subsidiar a existência material, e não o inverso. O que temos visto por um lado são pessoas descontentes com suas escolhas profissionais, reféns da existência e da subsistência, e de outro as cobranças naturais e intrínsecas das organizações, que precisam sobreviver num cenário acirrado, competitivo, rápido, ágil, acelerado e extremamente dinâmico. Num panorama assim, é quase impossível que não haja deterioração das relações interpessoais e da inteligência emocional. 

Em 2013, eu atendia uma organização de grande porte em programas de desenvolvimento para média e alta liderança. Em determinado momento, passei a perceber que os efeitos das tratativas em sala de aula não eram suficientes para dirimir as queixas (em sua maioria veladas, por se tratar de uma situação de sala de aula convencional). Diante disso, sugeri ao board do RH que experimentássemos uma abordagem mais invasiva, de caráter psicoterapêutico e grupal, com base na psicoterapia breve (PB), que tem foco no problema. A empresa topou minha sugestão e passamos a fazer sessões semanais de uma hora e meia de duração com os times. Os resultados colhidos após quatro meses de encontros com aqueles grupos foram surpreendentes. As relações pessoais e interpessoais, horizontais e verticais, melhoraram qualitativamente, o clima de trabalho ganhou novos ares e observamos um significativo ganho de motivação. Como consequência, houve o aumento da produtividade.

Como resolver essa equação do trabalho? Se de um lado suas relações podem levar a profissionais saudáveis, física e psicologicamente, o que é imprescindível para o sucesso de qualquer negócio, por outro, em muitos casos, comprometem o desempenho e a entrega, produzindo patologias nas pessoas, como gastrite, insônia, aumento ou perda de peso, alcoolismo, drogadição e depressão, que foi a doença da década de 1990 e segue firme nos anos 2000, acompanhada de todos os “ites” − rinites, faringites, laringites, sinusites, labirintites, otites, conjuntivites. E, claro, as enxaquecas, que prostram as pessoas. E há ainda as síndromes do pânico, de Burnout, da intolerância e outras mais. 

Ideias para solucionar o problema

Como profissional de saúde mental que convive com os dois universos, eu posso sugerir alguns caminhos para que o trabalho e suas relações não se tornem geradores de doenças: 

  • Autoconhecimento. Quanto mais e melhor nos conhecemos, mais aprendemos a lidar com nossas limitações de maneira saudável, ou minimamente saberemos quando gritar e pedir ajuda na hora certa.
  • Identifique qual é seu nível de resistência emocional, considerando que você não é super-herói.
  • Compreenda quando seu trabalho deixou de ser fonte geradora de prazer e passou a ser fonte de dor e sofrimento.

Durante minha especialização na PUC-SP (entre 1997 e 1998) em “Orientação profissional e vocacional”, vi muitas pessoas buscando reorientação profissional aos 45, 50 anos de idade. Elas estavam num caminho perigoso e sem volta no que dizia respeito tanto à saúde emocional quanto à física, em razão de uma carreira ou profissão não mais reparadoras do ego (eu). Para a psicanalista austríaca pós-freudiana Melanie Klein, o trabalho deve ser algo reparador, ou seja, que dignifica, gera prazer em sua realização e entrega, bem-estar, saúde mental e física, e nunca doença para o ego. Esse cenário levou a PUC-SP, já naquela época, a estender forte atuação de orientação profissional e vocacional para os adolescentes. A ideia era agir profilaticamente, na tentativa de formar adultos com carreiras mais bem direcionadas, visando o prazer pelo trabalho e menos sofrimento. 

Tenho visto muitos programas de trainees que tratam esses jovens talentos de maneira superficial, impregnando neles a ideia de um mundo de sucesso e recompensas rápidas, de visibilidade ímpar a qualquer prova, de projeção inequívoca no mundo corporativo etc. Esses programas, no entanto, pouco ou nada estão preocupados se esse ou aquele jovem está realmente disposto a pagar esse preço. Muitos jovens fazem escolhas profissionais equivocadas, o que produz adultos patológicos, sem vida, sem prazer nem motivação. Eu recebo depoimentos em sala de aula (durante treinamentos, capacitações, workshops) de jovens que, aos 25 anos, já tomam regularmente medicamento para pressão alta. Sinceramente, isso não é normal.

Outro dia, num programa in company de 16 horas sobre Inteligência Emocional, no primeiro intervalo do dia, ainda pela manhã, um rapaz de 23 anos me chamou de lado e, quase chorando, disse não estar mais suportando as pressões do dia a dia. De maneira remediada, em pé, ali na sala de aula, tive um papo com ele de dez minutos e o orientei naquilo que estava ao meu alcance. Esse rapaz foi fisgado por algo que eu disse nas primeiras duas horas de conteúdo. E os outros tantos que não se manifestaram e continuam até hoje com suas mazelas? Como estão no trabalho? Como estão na vida pessoal, nas relações? Estão conseguindo dormir bem? 

As organizações poderiam oferecer ajuda psicoterapêutica grupal a seus colaboradores, criando fóruns permanentes para dissipar os sentimentos não nobres que uns passam a nutrir pelos outros em razão de tudo já citado anteriormente. Dessa forma, promoveriam ambientes menos tóxicos. 

Vamos todos nos debruçar sobre essa causa para melhorarmos − a nós mesmos − e, assim, tornar mais saudáveis as relações de trabalho?

 

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